Memórias: Paulo Freire

19 09 2018

No dia 19 de setembro de 1921, nasceu Paulo Freire. Foi um pedagogo e filófoso brasileiro. Influenciou o movimento chamado “Pedagogia Crítica” e destacou-se na área da educação popular, voltada para a escolarização e para a formação da consciência política. Por António José André.
Paulo Frreire nasceu, no dia 19 de setembro de 1921, em Recife (Pernambuco). Aprendeu a ler e a escrever com os pais no quintal da casa onde nascera. Em 1929, mudou-se com a família para Jaboatão.
Em 1933, Paulo Freire perdeu o pai e os estudos foram adiados. Em 1943, entrou na Faculdade de Direito do Recife onde se licenciou. Depois, doutorou-se em Filosofia da Educação na mesma universidade.
As suas primeiras atividades profissionais foram o ensino da língua portuguesa e a alfabetização de pessoas pobres. Na década 60, destacou-se por desenvolver um método de alfabetização de adultos/as que dispensava o uso das cartilhas tradicionais.
O método “Paulo Freire” consistia em procurar palavras e temas significativos da vida do/a aluno/a, mostrando o seu significado social de modo a superar a visão acrítica do mundo e ter uma postura conscientizada.
Em 45 dias, Paulo Freire alfabetizou 300 trabalhadores rurais do Rio Grande do Norte. Esses excelentes resultados fizeram com que o método fosse incluído no Plano Nacional de Alfabetização do presidente João Goulart.
Após o golpe militar de 1964, Paulo Freire esteve preso durante 70 dias. Depois teve que se exilar na Bolívia e no Chile, onde desenvolveu atividades educativas e humanitárias, além de escrever algumas obras.
Em 1968, Paulo Freire escreveu a sua obra mais célebre: “Pedagogia do Oprimido”. Até 1980, foi desenvolvendo atividades relacionadas com a alfabetização em Genebra e em países africanos de língua portuguesa
Em 1980, Paulo Freire regressou ao Brasil. Filiou-se no Partido dos Trabalhadores, em São Paulo, tendo sido supervisor do programa do PT para a Alfabetização de Adultos.
Paulo Freire publicou, entre outros, o seguintes livros: “Educação como prática da Liberdade”, “Cartas à Guiné-Bissau. Registos de uma Experiência em Processo”, “Educação e Mudança” e “Pedagogia de Autonomia”.
Paulo Freire destacou-se pelo seu trabalho na área da educação popular, voltada tanto para a escolarização como para a formação da consciência política. Faleceu, no dia 2 de maio de 1997, no Hospital Albert Einstein, em São Paulo.

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Memórias: José Orozco

13 09 2018

No dia 7 de setembro de 1949, morreu José Clemente Orozco. Foi um pintor mexicano, que se destacou no Muralismo juntamente com Diego Rivera e Alfaro Siqueiros. Orozco interessou-se pelos valores universais e não insistiu nos valores nacionais. Por António José André.
José Clemente Orozco nasceu, no dia 23 de novembro de 1883, em Zapotlán (México). Aos dois anos mudou-se com a famíla para Guadalajara. Aos cinco anos, foi para a Cidade de México.
Em 1890, Orozco entrou na Escola Primaria anexa à Escola Normal de Professores. À noite, tinha aulas de desenho na Academia de Belas Artes de S. Carlos. Em 1897, a familia enviou-o para a Escola Agrícola de S. Jacinto
Orozco deixou a Escola Agricola para estudiar Arquitetura, mas a sua obsessão pela pintura, fê-lo entrar na Academia de Belas Artes, onde esteve de 1906 a 1910.
Em 1916, Orozco fez a sua primeira exposição na livraria Biblos da Cidade do México. Em 1917, viajou pelos Estados Unidos, tendo morado em San Francisco e Nova Iorque, vivendo da pintura de cartazes.
Em 1922, Orozco juntou-se a Diego Rivera e Alafaro Siqueiros no Sindicato dos Pintores. Em 1926, por encomenda da Secretaria da Educação, pintou em Orizaba, o mural “Reconstrução” no edificio que hoje é Palácio Municipal.
Em 1927, Orozco voltou para Nova Yorque, onde pintou uma série de óleos – “Queensboro Bridge”, “Winter” e “The Subway” – demostrando o caráter desumanizado da grande cidade.
Em 1934, Orozco regressou ao México. Produziu “Katharsis”, no Palácio de Belas Artes. É a representação sangrenta do conflito entre o homem moderno e o mundo caótico e mecanizado que o rodeia e o oprime.
Em 194, produziu dois murais no Corte Suprema do México com 4 motivos. Em 2 deles, critica e satiriza a prática da justiça. Num outro, refere-se às riquezas naturais do país sob proteção da bandeira e do jaguar, símbolos nacionais. O último tema, relaciona-se com os movimentos sociais operários.
Entre 1941 e 1944, Orozco dedicou-se à pintura de cavalete e a uma outra grande obra mural na abóbada e nas paredes do coro da igreja de Jesus Nazareno.
Até 1946, Orozco integrou com Rivera e Siqueiros a Comissão de Pintura Mural do Instituto Nacional de Belas Artes. Nesse ano, recebeu o Prémio Nacional de Belas Artes.
No ano seguinte, Orozco encarregou-se da pintura do teto da Câmara Legislativa de Guadalajara. O tema relacionava-se com o decreto que se promulgou naquele lugar abolindo a escravatura.
José Orozco interessou-se pelos valores universais e não insistiu nos valores nacionais. O seu estilo era de um realismo expressionista ligado às velhas tradições artísticas mexicanas e com um intenso dinamismo.





Memórias: Edward Palmer Thompson

29 08 2018

No dia 28 de agosto de 1993, morreu Edward Palmer Thompson. Foi um historiador marxista, escritor e militante socialista inglês. É considerado um dos maiores historiadores do século XX. Por António José André.
E.P. Thompson nasceu em Oxford, no dia 3 de fevereiro de 1924. Estudou História na Universidade de Cambridge, mas interrompeu o curso e alistou-se no exército para lutar contra o nazismo durante a IIª Guerra Mundial.
Enquanto estudava história, tornou-se militante do Partido Comunista da Grã-Bretanha (PCGB). Thompson licenciou-se, em 1946. Depois, alistou-se como voluntário numa brigada de solidariedade para com a Jugoslávia.
No partido, Thompson criou um grupo de historiadores, em 1946, ao qual pertenceram Eric Hobsbawm, Christhopher Hill, Doroty Thompson, entre outros. A militância nesse grupo foi fundamental para a sua formação.
Em 1948, Thompson foi contratado pela Universidade de Leeds para dar aulas noturnas a trabalhadores. Essa experiência foi fundamental para escrever a sua obra “A Formação da Classe Trabalhadora Inglesa”.
Em 1956, Thompson e cerca de sete mil membros romperam com o PCGB. Nesse ano, o XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética revelou os crimes de Estaline e a URSS invadiu a Hungria.
Os dissidentes do PCGB constituíram o núcleo do movimento político “Nova Esquerda” e fundaram a revista “New Reasoner Review”. Desse grupo faziam parte vários intelectuais marxistas: Raymond Willians, John Saville, Doroty Thompson, Ralph Miliband…
Em 1959, a “New Reasoner Review” fundiu-se com a “Universities and Left Review” (da qual fazia parte o jovem Perry Anderson) para criar a revista “New Left Review”, instrumento de debate teórico e político na Inglaterra e uma das principais revistas de orientação marxista no mundo.
Na década 80, Edward P. Thompson participou em diversas campanhas políticas, sobretudo como militante do movimento pacifista antinuclear.
Thompson lecionou em diversas Universidades: Warwich e Manchester (Inglaterra); Pittsburg, Rutgers, Brown e Dartmoth College (EUA); Queen’s de Kingston (Canadá). Morreu, no dia 28 de agosto de 1993, em Worcester.
Thompson deixou uma vasta obra onde abordou histórias do Trabalho e da Cultura. As suas preocupações eram avessas ao dogmatismo. A sua trajetória intelectual esteve ligada à trajetória da sua militância política.





Memórias: René Magritte

14 08 2018

No dia 15 agosto de 1967, morreu René Magritte. Foi um pintor surrealista belga, que deixou uma extensa obra artística. Foi influenciado por Breton, Ducjhamp, Miró, Dali e Chirico, mas mostrou a sua irreverência, subvertendo a realidade a partir das coisas simples do dia-a-dia. Por António José André.
René Magritte nasceu em Lessines (sul da Bélgica), no dia 21 de novembro de 1898. A família tinha baixos recursos: o pai era alfaiate; a mãe era chapeleira. Magritte e os seus dois irmãos mudaram frequentemente de casa. A mãe suicidou-se, quando Magritte era adolescente.
Em 1910, René Magritte começou a estudar pintura em Châtelet. Prosseguiu os estudos, em Charleroi, quando tinha 15 anos. Nessa altura, eram evidentes as influências que teve de Fântomas, das viagens de Robert Louis Stevenson e da literatura de Edgar Allan Poe.
Em 1916, Magritte entrou na Academia de Belas Artes de Bruxelas, onde permaneceu dois anos. As suas primeiras obras foram cubistas e depois futuristas. Enquanto estudava, andava em tertúlias e discussões políticas nos cafés de Bruxelas, conhecendo alguns pintores e poetas
Em 1920, Magritte realizou a sua primeira exposição profissional no Centro de Artes de Bruxelas. Em 1926, assinou contrato com a Galeria “Centaure” e pode dedicar-se a tempo inteiro à pintura. Nesse ano, inspirado na obra de Chirico, apresentou a sua primeira obra surrealista, “O Jóquei Perdido”.
Em 1927, mudou-se para Paris, entrando em contato com o movimento de vanguarda liderado por André Breton. Em 1928, produziu “Os Amantes” no qual os rostos estão cobertos por panos. Nesse ano, produziu “O Falso Espelho” no qual o olho humano reflete um céu com nuvens.
Em 1930, Magritte regressou a Bruxelas aprofundando a sua técnica e rejeitando a suposta espontaneidade do automatismo surreal. São dessa época as obras: “O Retrato” (1938) e “O Tempo Trespassado” (1939).
Apesar de ter produzido um grande número de obras, Magritte começou a ser reconhecido na década de 60. Tendo sido influenciado por Breton, Duchamp, Miró, Dali e Chirico, mostrou a sua irreverência, subvertendo a realidade a partir das coisas simples do dia-a-dia.





Memórias: Ciclismo – Glória e tragédia de Ottavio Bottecchia

3 08 2018

Nesta época do ano, em que muitas Voltas se dão, muitas competições se organizam e o ciclismo continua a ser uma modalidade popular, recordamos Ottavio Bottecchia com este belo texto de Marcos Pereda.

A senhora Bottecchia dá à luz pela oitava vez. Imaginamo-la cansada, certamente envelhecida de forma prematura. Oito filhos são muitos, embora na última década do século XIX essa quantidade não fosse rara. Mas é fácil dizer isto estando de fora, claro. O seu oitavo filho. Está esgotada, não quer pensar: põe Ottavio, de nome. E ficou Ottavio Bottecchia.

A fome ficou marcada no rosto do menino. As maçãs do rosto afundadas, a pele pálida, a testa clara, com rugas que o sol põe, quando estás exposto o dia inteiro. E o nariz, o nariz geométrico, o apêndice que te intimida, te observa, te estuda. O nariz lendário de Bottecchia do qual até Dino Buzzati acabará por falar. Nada menos.

Estamos no começo do século XX e os Bottecchia têm que se mudar. Abandonam a pequena povoação de Friul, muito perto de Treviso, e viajam para a Alemanha, terra prometida, à procura de um pedaço de pão para dar às suas crianças. Ali, em terras alemãs, Ottavio começa a trabalhar. De pedreiro. Trabalho duro, descarnado, ingrato. Os seus músculos endurecem, o seu caráter torna-se taciturno, concentrado. É um rapaz. É um operário. Em seguida, muito pouco depois, será um soldado.

Começa a Primera Guerra Mundial e Ottavio, que tinha voltado com a sua famíia para Itália, é chamado para as fileiras. O mesmo país que fez emigrar a sua família pela falta de oportunidades reclama agora o seu sangue para se defender da terra que os acolheu e alimentou durante anos. Ottavio vai, claro, para o Exército Real Italiano e alí é rapidamente incorporado na divisão dos Bersaglieri.

A dos ciclistas-soldados que acabam por se converter em lenda nas suas máquinas “Bianchi”, as mesmas que têm no guiador uma peça semelhante às usadas agora nas provas de contrarrelógio e que, naquela altura, servia para apoiar a espingarda. Aos Bersaglieri queria pertencer, mais do que nenhuma outra coisa na vida, o personagem pintoresco e trágico, Enrico Toti. Mas essa foi, seguramente, outra história…

O caso é que, inclusivamente entre todos aqueles ciclistas-soldados, se destaca Ottavio Bottecchia pela sua força, pela velocidade que era capaz de alcançar em longuíssimas distâncias pedalando sem mostrar fadiga. E, por isso, o seu destino não é outro senão o de transportar mensagens entre as línhas de defesas italianas. Por outras palavras, um dos exercicios mais arriscados que se possa imaginar.

Pelo menos, em duas ocasiões, Ottavio entra em batalha e ao que parece mostra-se confiante e tranquilo, fazendo gala de enorme sangue frio e pontaria certeira. Sai dessas emboscadas ileso e com uma medalha de prata do Ejército Italiano, pelo seu valor. Mas continua na guerra. Antes do final da Guerra terá sofrido um ataque com gás mostarda e sofreu de malária. Ah! E as suas pernas estão mais fortes que nunca, tanto que, assinado o Tratado de Versalhes, Bottecchia toma uma decisão: ser ciclista profissional.

Não será fácil. Viajará até França para trabalhar, de novo, como pedreiro, e competir nalgumas pequenas corridas. Ali, entre os seus companheiros de trabalho, vão sendo forjados sentimentos políticos no jovem Ottavio. Porque Bottecchia era socialista. Tinha aprendido a ler graças aos panfletos socialistas que os seus colegas lhe deixavam – naquela união tão curiosa entre o desporto e a política da qual falará mais tarde Gramsci, em sentido contrário, quando conta que na prisão os presos políticos do fascismo mantinham o contacto com o exterior graças à leitura da “Gazzetta dello Sport” e as glórias dos ciclistas italianos – e o seu sentimento proletário encarna-se profundamente. Não será, claro, a última vez que falamos das ideias de Ottavio…

Na bicicleta, o jovem Bottecchia demonstra rapidamente as suas qualidades: tenacidade, fortaleza, capacidade extrema de sofrimento. E uma qualidade de escalador como, dizem, nunca dantes vista. O treino na Frente Italiana parece ter dado os seus frutos. A sua estrela cada vez brilha mais e a ninguém surpreende que seja selecionado pela equipa Automoto-Hutchinson, uma das mais potentes da época, para correr na Volta à França de 1923.

Aquela corrida é completamente dominada pelo principiante e só a sua disciplina o afasta da vitória, que vai parar ao chefe de equipa, Henri Pelissier. Quando o francés ordena a Bottecchia que o espere em qualquer etapa, o italiano obedece sem problemas, parando e deixando passar minutos enquanto limpa com esmero a bicicleta, tirando a lama, engraixando os travões… Todos estão conscientes que foi o melhor, mas termina em segundo lugar, em París. No ano seguinte fará ainda melhor.

Henry e Charles Pelissier mantêm, desde há tempos, um conflito azedo com Desgrange, o criador e diretor da Volta, que não gosta de modos toscos, dos costumes escandalosos dos irmãos. A situação torna-se irremediável quando Desgrange descobre Henri a atirar uma camisola de lã ao chão, algo completamente proibido. Desqualificação, discussão, insultos… Os Pelissier ficam fora da Volta e nesse mesmo día concederam uma entrevista a Albert Londrés cujo título é já símbolo do ciclismo: “Os Forçados da Rota”…

A consequência desportiva deste facto é que Bottecchia tem caminho livre para se impor na carreira e fá-lo-á com uma superioridade abismal sobre os outros, deixando algumas histórias que se recordam sempre, como quando na etapa “Casse Desserte” sai da bicicleta para percorrer os últimos metros a pé, cantando a plenos pulmões canções militares transalpinas. Dias depois será o primeiro italiano a impor-se, em París. Glória para a nova estrela.

Menos no seu país de origem, claro, onde as suas ideias de esquerda casam pouco com as novas políticas que o Duce está a impor. Que falem, que falem de Bottecchia, mas só como desportista. Nada de dar voz às suas pretensiões políticas. Nada de o converter em líder, em símbolo, para certos grupos. Nada disso. Um ciclista e só um ciclista. E veremos o que fazer com ele…

No ano seguinte, Bottecchia ganha a segunda Volta à França vestindo a camisola amarela, desde o primeiro dia. É, dizem, o mais sólido ciclista que existiu. Em 1926, vê-se condenado a abandonar metade da etapa “Bayona-Luchon”, que percorre a tetralogía pireneica, a do Círculo da Morte, sob um nevão asgardiano que passou para a história como a jornada mais dura de sempre da Volta. Um dia de tantos retalhos, de tantas peças, de tantos homens duros que nem penedos a chorar desconsolados nas bermas… Picado pelo seu amor própio, incapaz de dar uma só pedalada mais, Bottecchia promete voltar no ano seguinte para se vingar e vencer pela terceira vez, em Paris. Nunca o poderá tentar tentar.

“Meu maior temor é que as minhas ideias tragam alguma desgraça à minha família”, disse uma vez Ottavio. Em maio de 1927, os seus piores presságios parecem tornar-se reais quando o seu irmão Giovanni, também ciclista, é empurrado por um carro que se põe em fuga, enquanto treina. Giovanni cai no chão, magoado. Ottavia cala e continua a preparar-se. Planeia mudar-se para França por causa da Volta. Volta que nunca chegará a correr.

São nove da manhã de três de junho de 1927, e um agricultor caminha hesitante. Viu algo estranho apoiado no muro das suas terras. Um fardo, um corpo humano. É um ciclista. As feridas são tremendas e quase não lhe permitem reconhecer Ottavio Bottecchia, o grande Ottavio. Levam-no para o hospital de Gemona, mas não há nada a fazer. Falece uns días depois.

Abre-se uma investigação. O que se passou com o ídolo? A conclusão é vaga: uma queda provocou os golpes e, por extensão, a sua morte. Mas não escapa a ninguém que essa explicação é insustentável: a bicicleta estava a vários metros de Bottecchia e apresentava apenas pequenos estragos. Não, não foi um acidente. Todos murmuram. Foram eles, os fascistas. Foram eles que o seguiram, lhe deram uma tareia, o deixaram moribundo. Eles. A ele. Ao vermelho. Tudo é silêncio naqueles gritos desgarrados. Itália gemerá sem que ninguém a escute durante décadas.

Muitos anos depois, um sacerdote recebe a última confissão de um agricultor moribundo. Foi ele, diz, que matou o ciclista há tanto tempo. Foi ele, que o fez porque lhe estava a roubar umas uvas das suas terras. Apanhou uma pedra e golpeou-o. Não queria fazê-lo, foi un acidente. Fui eu. E expira. E o sacerdote conta à imprensa. Caso encerrado, o de Botecchia. Foi um cúmulo de desgraças.

Sem política, sem vinganças. Só que… só que em junho não há uvas para roubar e não te matam por causa delas. E o sacerdote em questão tinha sido um fervoroso fascista durante o Regime. E que, em definitivo, nada estava explicado sobre tudo o que se podia explicar. Porque, ainda hoje, não sabemos como morreu o homem que, quase certamente, mataram por causa das suas ideas. Fica a sua recordação, os seus gestos. Fica, também, o seu mistério.

Marcos Pereda é um escritor, jornalista e professor universitário.

Tradução: António José André

Nota: Ottavio Bottecchia nasceu no dia 1 de agosto de 1894.

Artigo publicado em http://ctxt.es/es/20160127/Deportes/3894/Ottavio-Bottecchia-ciclismo-Italia-I-Guerra-Mundial-bersaglieri-Tour-de-Francia-fascismo-Mussolini.htm





Memórias: George Rodger

27 07 2018

 

  Foto de George Rodger com a família em 1990.

No dia 24 de julho de 1995, morreu George Rodger. Foi um fotógrafo britânico, cujo trabalho teve grande projeção. Foi um dos fundadores da agência “Magnum Photos”. Por António José André.
George Rodger nasceu no dia 19 de março de 1908, em Hale (Grã-Bretanha). Era um fotógrafo autodidata que pretendia ser escritor, sentindo necessidade de retratar o mundo tal como era.
Depois de concluir os estudos, Rodger alistou-se na marinha mercante britânica com a intenção de viajar. Nessa altura, começou a escrever sobre viagens e comprou uma câmara de bolso Kodak para ilustrar as histórias.
Em 1929, já tinha dado a volta ao mundo 3 vezes, mas não tinha encontrado alguém interessado em publicar as suas histórias. Depois de um período difícil nos EUA, trabalhou como fotógrafo para a revista “The Listener”.
Mais tarde, Rodger colaborou com a “Black Star Agency, publicando fotografias na “Tattler”, “Sketch”, “Bystander” e “Illustrated London News”. As suas fotografias chamaram a atenção dos responsáveis da revista “Life”.
Com o começo da Segunda Guerra Mundial, tornou-se correspondente de guerra da revista americana “Life”. Entre 1939 e 1945, visitou mais de 60 países, fazendo a cobertura de 18 combates e campanhas de guerra.
Os trabalhos mais importantes de Rodger foram: os bombardeamentos de Londres, a libertação de Burma, a batalha de Monte Cassino, a libertação de Paris e a libertação do Campo de Concentração de Bergen-Belsen.
Rodger foi um dos primeiros fotógrafos a entrar no Campo de Concentração de Bergen-Belsen. As fotos que tirou aos sobreviventes e a montes de cadáveres foram publicadas nas revistas “Time” e “Life”.
Essas fotos acabaram por ser uma das maiores provas do que acontecia nos campos de concentração da Alemanha nazi. Essa experiência marcou-o muito e Roger abandonou a carreira de fotógrafo de guerra.
Então resolveu explorar o mundo, indo para desertos, florestas e várias partes do mundo. O seu trabalho de documentação de pessoas de África e do Médio Oriente ilustraram várias revistas e livros do mundo.
Em 1947, Rodger juntou-se a Robert Capa, Cartier-Bresson e David Seymour para criar a agência “Magnum Photos”, onde foi Vice-Presidente. Até à década de 80, fez mais de quinze viagens a África.
As suas reportagens a cores do Sahara, dos tuaregues e da vida animal, foram publicadas pela revista “National Geographic”. O seu trabalho teve grande projeção. George Rodger morreu, no dia 24 de juho de 1995.





Memórias: Langston Hughes

23 05 2018

No dia 22 de maio de 1967, morreu Langston Hughes. Foi um poeta, novelista, dramaturgo, colunista e ativista social norte-americano. Foi um dos líderes do movimento modernista “Harlem Renaissance”. Por António José André.
Hughes nasceu dia 1 Fevereiro de 1902, no Missouri. Passou a infância com a avó materna, no Kansas. Viveu algum tempo com o pai, no México, deixando-o por causa do desprezo pela raça. Viajou por mar e trabalhou em França e Itália. Depois, apareceu na cena literária de Harlem, publicando nas revistas “Crisis” e “Oportunity” (de 1921 a 1925).
Langston Hughes foi o mais famoso do movimento modernista “Harlem Renaissance”, que contou com muitos outros autores: Claude McKay, Jean Toomer, Zora Neale Hurston… Esse movimento também lançou as carreiras musicais de Billie Holiday, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan…
“The negro Artist and the Racial Mountain” (1926) converteu-se no Manifesto desse movimento. Em 1935, pôs em cena o drama “Mulato”, violenta acusação contra o sistema racial do Sul, centrado num personagem alienado, tanto no mundo dos negros, como no dos brancos.
A experiência da Guerra civil espanhola, que presenciou em 1937, como correspondente na frente republicana, inspirou-lhe vibrantes poesías levando-o a um compromisso político com posições claramente de esquerda, pasando a fser perseguido durante o macartismo.
Hughes foi um dos maiores expoentes da “Harlem Renaissance”, sendo o principal representante da cultura afro-americana e um dos mais brilhantes poetas. A sua escrita e as suas intervenções públicas tiveram como objetivo o progresso social e civil da população afro-americana dos Estados Unidos.
O seu trabalho viria a influenciar outros autores: Léon Damas, Léopold Senghor e Aimé Césaire… Langston Hughes foi um dos escritores que mais influenciaram a poesia contemporânea africana de língua inglesa, em particular, a da África do Sul.
Veja também: https://www.youtube.com/watch?v=B3PmUcJbFAo