Memórias: Allen Ginsberg

4 04 2019

No dia 5 de abril de 1997, morreu Allen Ginsberg. Foi um escritor, filósofo e ativista norte-americano. Fez parte do núcleo duro da Beat Generation: movimento que rejeitava os valores tradicionais e contribuiu para uma revolução cultural, nos anos 50 e 60. Por António José André.
Allen Ginsberg nasceu a 3 de junho de 1926, em New Jersey (EUA). O pai era professor, poeta e socialista. A mãe era comunista radical. Em criança, viveu episódios paranóicos da mãe e descobriu que gostava de meninos.
Na Escola Secundária, Ginsberg encantou-se com a obra de Walt Whitman. Depois de findar o secundário, inscreveu-se na Universidade de Columbia (Nova Iorque) graças a uma bolsa da associação Young Men’s Hebrew.
Naquela cidade, tornou-se amigo dalguns jovens (Lucien Carr, Jack Kerouac, William Burroughs e Neal Cassady) interessados em drogas, literatura e sexo. Ginsberg e os seus companheiros foram expulsos da Universidade.
Ginsberg acreditava que aquele grupo se dirigia para uma nova visão poética. Experimentou anfetaminas e marijuana. Frequentou bares gays. E começou uma relação amorosa com Neal Cassady.
Em 1954, Ginsberg mudou-se para São Francisco, cidade onde a Beat Generation estava a ganhar força graças à atividade dos poetas, Kenneth Rexroth e Lawrence Ferlinghetti, fundadores da editora e livraria “City Lights”.
Ginsberg tinha escrito muita poesia, mas quase nada tinha publicado. Em 1956, a City Lights Books publicou, “Howl and Other Poems” (“Uivo e Outros Poemas”). Considerado “obsceno”, foi apreendido pelos serviços alfandegários e pela polícia, sendo alvo dum longo processo judicial.
Os argumentos de vários poetas, críticos e professores universitários (Kenneth Rexroth, Walter V. T. Clark e Mark Schorer) convenceram o juiz. Terminado o processo, tornou-se o livro de poesia mais vendido nos EUA.
Allen Ginsberg, Jack Kerouac e William Burroughs foram o núcleo duro da Beat Generation: movimento que rejeitava os valores tradicionais e contribuiu para uma revolução cultural nos anos 50 e 60.
Ginsberg viajou pelo mundo. Descobriu o budismo. Apaixonou-se por Peter Orlovsky: seu companheiro para o resto da vida. Nos anos 1960, ajudou Timothy Leary a divulgar o LSD. Em 1968, foi um ativista importante contra a Guerra do Vietname.
Ativista durante toda a vida, Ginsberg falava abertamente sobre drogas, homossexualidade e liberdade. Manteve uma publicação regular ao longo da vida. Os seus livros constituíam um apelo à paz e à defesa dos mais desfavorecidos.
Ginsberg manteve a sua agenda social ativa até 5 de abril de 1997: dia em que morreu, na sequência de cancro do fígado. Tinha 70 anos. Antes de morrer, ligou aos amigos e familiares dizendo o seu último poema.
Datado de 30 de março, “Things I’ll Not Do” (Nostalgias) era uma lista de coisas que gostaria de fazer: visitar a Bulgária; beber chá de menta em Marrocos; olhar para a Esfinge, enquanto o sol se punha no deserto…
Leia também: http://www.litkicks.com/AllenGinsberg

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William Burroughs: centenário do nascimento

18 02 2014

WB

O século conspirador, alucinado e excitante de William Burroughs

Passaram cem anos do nascimento de William Burroughs (5 de fevereiro de 1914): escritor, pintor e crítico social. Burroughs foi impulsionador da geração “beat” e influenciou dezenas de artistas.
 

Andrés Hax*

William Burroughs (1914–1997) é um dos novelistas norte-americanos mais radicais, extranhos e contundentes da segunda metade do século XX. A sua influência vai desde Jack Kerouac (aparece como o personagem “Old Bull Lee” em “On The Road”) a Kurt Cobain (com quem gravou um curioso disco, em 1993), passando por J.G. Ballard e Lou Reed.
O termo Heavy Metal, como referência ao género musical, deve-se a uma frase da sua obra “The Soft Machine” (1961).

Em 1994, (aos 80 anos de idade) cruzou outra fronteira e apareceu num spot publicitário da Nike. Poderia ser enumerada uma longa lista da sua influencia profunda, não só em escritores, mas também em artistas de todo o género.
Mas se alguém for à Harvard Book Store, uma livraria independente, em Cambridge ou Massachusetts, e procurar nas estantes de ficção os livros de Burroughs, não os encontrará. Como pode ser que uma das melhores livrarias dos Estados Unidos e uma das universidades mais prestigiadas do planeta (na qual Burroughs estudou), não tenha obras de tão influente autor? Sucede que os livreiros guardam-nas atrás do balcão, porque William Burroughs é um autor que se rouba.

Nunca ganhou um Pulitzer e muito menos um Nobel. Nunca foi best-seller, nem se vendeu nos aeroportos, mas os livros de William Burroughs, ainda hoje, a cem anos do seu nascimento, são roubados das livrarias. Os ladrões são sempre jovens. Esse é o melhor pretexto sobre a importãncia vital da escrita deste homem.

Pela sua aparência, sempre se pareceu mais com um banqueiro do que como lenda da contracultura, mas na sua essência Burroughs foi um rufião. Foi elegante, inteligentíssimo e encontrou redenção na sua arte, mas foi um rufião afinal de contas. Burroguhs disse que começou a escrever para exorcizar o demónio que possuiu a sua alma, quando matou a sua esposa com um tiro num acidente enquanto – bêbados – jogavam Guillermo Tell.

Burroughs teve un papel central ao impulsionar a geração Beat: funcionou como um mentor (quando não escrevia) para Jack Keruac e Allen Ginsberg.

A sua obra completa, que inclui onze novelas, dezenas de contos, milhares de cartas e textos inclassificáveis, está cheia de drogados, cenas bizarras homoeróticas, complexas graças escatológicas, ensaios paranicos, viagens no tempo e cenários de ficção científica que pareceram ter nascido do cruzamento entre Franz Kafka e o Marquês de Sade. Mas isso é só à superfície. Na sua profundidade, a escrita de Burroughs é um sonho, tanto na sua dinámica como nos seus conteúdos. E tal como nos sonhos, às vezes, vêm o futuro.

Na sua obra mais conhecida, “Naked Lunch” (1959) – que foi adaptada ao cinema, em 1991, por David Cronenberg – Burroughs escreve: “ O estudo de máquinas inteligentes diz-nos mais sobre o cérebro do que aquilo que podemos aprender por métodos introspetivos. (…) Em breve, estaremos a operar por controle remoto sobre pacientes que nunca veremos (…) Pouco depois de nascer, um cirurgião poderia insertar conexões no cérebro.”

Numa reportagem J.G. Ballard afirmou: “Viu o mundo como uma enorme conspiração de corporações mediáticas, do establishment político e da corrupção da ciência médica (…) Os seus livros são uma intenção de explorar esta cómoda conspiração, para nos permitir ver claramente a realidade.”

Burroughs formou-se em Letras, em Harvard. O seu avô tinha inventado uma calculadora – The Burroghs Adding Machine – que foi um elemento central no mundo dos negócios de finais do século XIX. Burroughs também estudou Medicina, em Viena. Estava encaminhado para ser um cidadão modelo, mas algo aconteceu. Um moralista diria que a culpa foram as drogas e os seus apetites sexuais.

Os seus defensores diriam o contrário: que tal como Kafka ou Philip Dick, William Burroughs percebeu o profundo mal estar numa sociedade que se recusava enfrentar a si mesma e que negava olhar para o seu lado mais obscuro. Desse ponto de vista, as obras de Burroughs são como sonhos lúcidos nos quais alguém desperta mais informado. Não é uma realidade cómoda ou esmerada. E talvez ainda inclua visões sobre o futuro.

Andrés Hax – jornalista
• Tradução: António José André
http://www.revistaenie.clarin.com/literatura/conspirador-alucinado-excitante-William-Burroughs_0_1079292361.HTML





Banquete Nu: faz 50 anos

19 08 2009

sem-eduardo1A primeira edição de Banquete Nu” (Naked Lunch) de William S. Burroughs (1914-1997) foi publicada, há 50 anos. Esta obra-prima da geração beatnik foi mais tarde adaptada ao cinema por David Cronenberg (1983).

Burroughs foi escritor, pintor e crítico social norte-americano. Grande parte da sua obra, de atmosfera fantástica, tem carácter autobiográfico e uma linguagem proveniente de fluxos de consciência com uso de alucinogénios.

 Homossexual, depois da morte acidental da esposa, Burroughs foi um dos pioneiros da literatura experimental, tanto no universo léxico como no consumo de drogas para produção subjectiva de textos.

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