Tamiflu: um medicamento inútil? Não para os acionistas da Roche.

9 05 2014

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Gilles Godinat*

Um artigo do prestigiado British Medical Journal (BMJ) põe em dúvida a utilidade do anti-viral oseltamivir, conhecido sob o nome comercial de Tamiflu – Foto ahisgett/flickr O artigo do prestigiado British Medical Journal (BMJ), publicado a 10 de abril apresenta um estudo do grupo Cochrane (peritos independentes) que põe em dúvida a utilidade do anti-viral oseltamivir, conhecido sob o nome comercial de Tamiflu, e denuncia uma operação de mero lucro.

Quando este conhecido tipo de medicamentos anti-virais ainda não tinha nenhum sucesso, devido à sua eficácia muito limitada, a Roche conseguiu com um golpe de “marketing” 11,5 milhões de euros, vendendo enormes quantidades do seu produto diretamente aos governos, sob o pretexto de prevenir uma ameaça de pandemia do mal conhecido vírus gripal A (H1 N1), defendendo que o Tamiflu era o único remédio eficaz contra certas complicações como a pneumonia. A Suíça comprou-o gastando 4 milhões de francos (Confederação e cantões), “e se tivesse que voltar a ser feito, far-se-ia”, confiava à imprensa D. Koch, o responsável pela divisão das doenças contagiosas do Departamento Federal de Saúde Pública, provável vítima do vírus “Roche gripe”… Do lado da Swissmédic, a agência de controle dos medicamentos, as declarações são mais matizadas, mas nem falar em pôr em questão o princípio de precaução com reservas obrigatórias de Tamiflu, em caso de pandemia.

Uma impostura?

No entanto, segundo os autores do recente estudo do grupo Cochrane a Roche vendeu milhões de comprimidos dessa molécula, que não tem qualquer efeito preventivo que esteja demonstrado, nem sobre os sintomas graves nem sobre a mortalidade. Além disso, o coordenador desta investigação, Tom Jefferson, põe o acento nos efeitos secundários graves do Tamiflu (náuseas, vómitos, problemas psíquicos), que foram falsificados pela indústria farmacêutica. Em resumo, nenhuma prova de eficácia, mas efeitos negativos bem reais. Terão sido precisos quatro anos de duras batalhas para que a Roche aceitasse publicar alguns dados, ameaçada com ações judiciais por alguns governos. O gigante farmacêutico suíço, evidentemente, defende-se acenando com novos estudos favoráveis à sua causa, acusando inclusive o grupo Cochrane – cúmulo da arrogância! – de inexperiência.

A polémica em torno do Tamiflu remonta há vários anos, com as primeiras publicações do British Medical Journal a pôr em questão a eficácia desta molécula: 48 horas depois do início da infeção, o medicamento já tem apenas efeito de placebo. Mas o trabalho de lóbi da Big Pharma é de tal potência que nem a OMS nem a UE lançaram procedimentos para exigir um aumento da transparência do círculo muito fechado dos “laboratórios” farmacêuticos.

Desde os anos 1930, mas sobretudo depois da Segunda Guerra Mundial, estas sociedades adquiriram uma dimensão internacional com a industrialização da produção dos antibióticos. Com o desenvolvimento dos blickbusters, moléculas que garantem um volume de negócios anual que supera os mil milhões de dólares, uma vintena de empresas, apenas, impuseram-se como multinacionais do setor, gerando atualmente um volume de negócios de mais de um bilião (1.000.000.000.000) de dólares por ano, que triplicou em quinze anos.

Big Pharma, um perigo para a saúde

No seu recente livro Big pharma: une industrie toute puissante qui joue avec notre santé (Big Pharma: uma indústria todo-poderosa que brinca com nossa saúde), Las Arènes, 2013, Mikkel Borch-Jacobsen descreve o cínico marketing de moléculas perigosas, os ensaios clínicos manipulados ou dissimulados por causa dos maus resultados, “peritos” com conflitos de interesses, agências sanitárias complacentes ou passivas, sistemas de fármaco-vigilância (supervisão) pouco reativos, uma informação médica submetida a determinadas influências, graves carências éticas. Numerosos testemunhos e documentos tinham chamado já a atenção, desde há duas décadas, sobre essas práticas inaceitáveis, cujos principais escândalos foram abafados por acordos financeiros.

O Dr. Bernard Dalbergue, um médico empregado durante anos pelas Big Pharma, denuncia também o comportamento sem escrúpulos desse grupo, no seu recente livro: Omerta dans les labos pharmaceutiques (Omerta nos laboratórios farmacêuticos), Flammarion 2014. A Glaxo Smith Kline (GSK), um dos gigantes do ramo, teve que pagar 90 milhões de dólares para pôr fim aos processos judiciais derivados do seu perigoso anti-diabético Avandia e 150 milhões de dólares por prática abusiva. A Boehringer-Ingelheim pagou 90 milhões de dólares por marketing ilegal. A Eli-Lilly travou uma investigação por corrupção pagando 29,4 milhões de dólares. Para não falar do Diovan, um fármaco da Novartis usado contra a hipertensão, cujo volume de negócios atingiu 6 mil milhões de dólares em 2010 e que tem sido denunciado pelos seus efeitos perigosos.

Uma só solução: o controle público

Houve numerosos casos (Vioxx, Mediator), em que a indústria farmacêutica “ignorou” efeitos secundários perigosos. Dá-se também o caso de medicamentos cujo benefício é muito marginal para os doentes, como o anti-cancerígeno Erbitux, mas que dão muito dinheiro a ganhar. O Tamiflu é a caricatura: nenhum efeito, grandes lucros. Em 2008, Jörg Blech já tinha denunciado os aspetos mais chocantes dessas práticas em Les inventeurs de maladies : manœuvres et manipulations de l’industrie pharmaceutique (Os inventores de doenças: manobras e manipulações da indústria farmacêutica) (Actes Sud).

Quando as multinacionais tentam impor a sua lei com a ajuda de acordos internacionais negociados em segredo para enfrentar às débeis veleidades dos governos de exercer o mais pequeno controle sobre as suas atividades, e sobretudo para lhes facilitar o acesso a novos mercados e reduzir o lugar e o papel do setor público, é urgente que a sociedade civil lute pelo controle público da investigação, da produção e da venda dos produtos farmacêuticos. Devemos pôr termo aos estragos sociais e do meio ambiente provocados por esses gigantes. Os medicamentos devem ser considerados como um bem comum e a sua produção deve ser assegurada pelo setor público para garantir investigações orientadas para as necessidades sociais mais urgentes, a preços que garantam o seu acesso a todos e a todas.

Só há um único remédio eficaz contra a nocividade da indústria farmacêutica: o controle público!

Mais informação:

O que a saga Tamiflu nos conta sobre os ensaios clínicos e a indústria farmacêutica. Ben Goldacre, “The Guardian”, 10 de abril de 2014, traduzido para espanhol por saludyfarmacos.org

  • Artigo de Gilles Godinat publicado na revista bimensal de solidaritèS (Suíça), nº 247 e disponível em espanhol em vientosur.info

 

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