Holocausto Cigano: Ontem e Hoje (I parte)

15 12 2010

                         Holocausto Cigano: Ontem e Hoje (primeira parte)

José Steinsleger *

1496: Auge do pensamento humanista. Os povos rom (ciganos) da Alemanha, são declarados traidores para com os países cristãos, espiões a soldo dos turcos, portadores da peste, bruxos, bandidos e sequestradores de crianças.

1710: Século das luzes e da razão. Uma lei ordena que os ciganos adultos de Praga sejam enforcados sem julgamento. Os jovens e as mulheres são mutilados. Na Boémia, cortam-lhes a orelha esquerda. a Morávia, a orelha direita.

1899: Clímax da modernidade e do progresso. A polícia da Baviera cria a Secção Especial de assuntos ciganos. Em 1929, a secção foi elevada à categoria de Central Nacional e transferida para Munique. Em 1937, instala-se em Berlim. Quatro anos depois, meio milhão de ciganos morre nos campos de concentração da Europa central e do Leste.

2010: Fim das ideologias (sic). Em Itália, (onde nasceu a razão do Estado) e, em França (sede mundial da elite intelectual), os gabinetes de ambos governos (com forte apoio popular, o seja, democráticos), deportam milhares de ciganos para a Bulgária e Roménia.

A tragédia dos rom começou nos Balcãs. Que drama europeu não começou nos Balcãs? Em meados do século XV, o príncipe Vlad Dracul (o Demónio, um dos heróis nacionais da resistência contra os turcos), regressou de uma batalha travada na Bulgária com 12.000 escravos ciganos. Com certeza…não era cigano o misterioso cocheiro do conde Drácula?

O doutor Hans Globke, um dos redactores das leis de Nuremberga sobre a classificação da população alemã (1935), declarou: os ciganos são de sangue estrangeiro. Estrangeiros de onde? Sem poder negar que cientificamente eram de origem ariana, o professor Hans F. Guenther classificou-os numa categoria à parte: Rassengemische (mistura indeterminada).

Na sua tese de doutorado Eva Justin (assistente do doutor Robert Ritter, da secção de investigações raciais do Ministério da Saúde alemão), afirmava que o sangue cigano era perigoso para a pureza da raça alemã. E um tal doutor Portschy enviou um memorando a Hitler sugerindo que os submetesse a trabalhos forçados e à esterilização em massa, porque punham em perigo puro sangre pura do campesinato alemão.

Classificados de criminosos inveterados, os ciganos começaram a ser detidos em massa e, a partir de 1938, foram internados em blocos especiais n os campos de Buchenwald, Mauthausen, Gusen, Dautmergen, Natzweiler e Flossenburg.

Num campo da sua propriedade de Ravensbruck, Heinrich Himmler, chefe da Gestapo (SS), criou um espaço para sacrificar mulheres ciganas que eram submetidas a experiências médicas. Esterilizaram-se 120 meninas ciganas. No hospital de Dusseldorf-Lierenfeld esterilizaram-se ciganas casadas com não ciganos.

Milhares de ciganos foram deportados da Bélgica, Holanda e França para o campo polaco de Auschwitz. Nas suas Memorias, Robert Hoess (comandante de Auschwitz), conta que entre os deportados ciganos havia velhos quase centenários, mulheres grávidas e um grande número de crianças.

No gueto de Lodz (Polónia), as condições foram extremas. Nenhum dos 5.000 ciganos sobreviveu. Mais de trinta mil morreram nos campos polacos de Belzec, Treblinka, Sobibor e Maidaneck.

Durante a invasão alemã à União Soviética (Ucrânia, Crimeia e países bálticos) os nazis fuzilaram em Simvirpol (Ucrânia) 800 homens, mulheres e crianças na noite de Natal, em 1941. Na Jugoslávia, executava-se por igual ciganos e judeus no bosque de Jajnice. Os camponeses recordam os gritos das crianças ciganas levadas para os locais de execução.

Segundo consta nos arquivos das Einsatzgruppen (patrulhas móveis de extermínio do exército alemão), ter-se-iam assassinado 300.000 ciganos na URSS e 28.000 na Jugoslávia. O historiador austríaco Raoul Hilberg, estima que antes da guerra viviam na Alemanha 34.000 ciganos. Ignora-se o número de sobreviventes.

Nos campos de extermínio, só o amor dos ciganos pela música foi às vezes um consolo. Em Auschwitz, esfomeados e cheios de piolhos, juntavam-se para tocar e estimulavam as crianças a bailar. Mas também era lendária a coragem dos guerrilheiros ciganos que militavam na resistência polaca, na região de Nieswiez.

“Também eu tinha/uma grande família/foi assassinada pela Legião Negra/homens e mulheres foram esquartejados/entre elas também crianças pequenas [versos do hino rom].”

As exigências de assimilação, expulsão ou eliminação (não necessariamente por esta ordem) justificariam a afeição dos povos rom pelos talismãs. Os ciganos têm três nomes: um, para os documentos de identidade do país onde vivem; outro, para a comunidade e, um terceiro, que a mãe musa durante meses ouvia do recém-nascido. Esse nome, secreto, servirá como talismã para protegê-lo contra todo o mal.

 * José Steinsleger é escritor e jornalista argentino. Texto publicado em La Jornada (México). Tradução: António José André.

 

 

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