Eduardo Galeano: armados contra os pobres

23 07 2009

Se a justiça internacional existe verdadeiramente, porque é que nunca se julgam os poderosos? Os autores das mais ferozes carnificinas não são presos. Será porque são eles quem têm as chaves das prisões?

02af1Porque é que são intocáveis as cinco potências que têm direito de veto nas Nações Unidas? Esse direito tem origem divina? Velam pela paz os que fazem o negócio da guerra? É justo que a paz mundial esteja a cargo das cinco potências, que são as principais produtoras de armas? Sem desprezar os narcotraficantes, não é este também um caso de “crime organizado”?

Não pedem castigo contra os senhores do mundo, os clamores de quem exige, em toda a parte, a pena de morte. Os clamores clamam contra os assassinos que usam navalhas, mas não contra os que usam mísseis.

E alguém questiona: já que esses justiceiros estão tão cheios de vontade de matar, porque é que não exigem a pena de morte contra a injustiça social? É justo um mundo que, em cada minuto, destina 3 milhões de dólares em gastos militares, enquanto, em cada minuto, morrem 15 crianças por fome ou doença curável? Contra quem se arma, até aos dentes, a chamada comunidade internacional? Contra a pobreza ou contra os pobres?

Porque é que os fervorosos da pena capital não exigem a pena de morte contra os valores da sociedade de consumo, que quotidianamente atentam contra a segurança pública? Ou por acaso não convida ao crime o bombardeamento da publicidade que atordoa milhões e milhões de jovens desempregados, ou mal pagos, repetindo-lhes, noite e dia, que ser é ter, ter um automóvel, ter sapatos de marca, ter. E quem não tem, não é?

E porque é que não se implanta a pena de morte contra a morte? O mundo está organizado ao serviço da morte. Ou não fabrica morte a indústria militar, que devora a maior parte dos nossos recursos e boa parte das nossas energias? Os senhores do mundo só condenam a violência quando é exercida por outros. Este monopólio da violência traduz-se num facto inexplicável para os extraterrestres e é também insuportável para os terrestres, que querem sobreviver: os humanos são os únicos animais especializados no extermínio mútuo e que desenvolveu uma tecnologia da destruição que está a aniquilar, a pouco e pouco, o planeta e todos os seus habitantes.

Essa tecnologia alimenta-se do medo. E neste comboio para a implantação da pena de morte, que tal se condenarmos à morte o medo? Não seria saudável acabar com esta ditadura universal dos assustadores profissionais? Os espalhadores de pânicos condenam-nos à solidão e proíbem-nos a solidariedade: salve-se quem puder, afastam-nos uns dos outros. O próximo é sempre um perigo. Muito cuidado, este roubar-te-á, aquele violar-te-á, esse carrito de bebé esconde uma bomba muçulmana e, se essa vizinha de aspecto inocente te olha, é porque te contagia com a peste suína.

http://www.rebelion.org

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